catatau
   
1 - Livro de Jó, descendência e amizade
2 - Links for 2008-05-08 [del.icio.us]
3 - Links for 2008-05-07 [del.icio.us]
4 - Frédéric Gros, sobre novas noções de Guerra
5 - Categorias raciais e sociais, no informe sobre ações afirmativas.
6 - Unembbed - Sítio e Livro
7 - O que é o Behaviorismo? (com vídeos de B. F. Skinner)
8 - Malthus de novo
9 - Obras Completas de Charles Darwin on-line
10 - Links for 2008-04-27 [del.icio.us]
11 - Illan Pappé e o debate brasileiro
12 - Links for 2008-04-25 [del.icio.us]
13 - Links for 2008-04-24 [del.icio.us]
14 - De Virgílio, a Dante (de A Divina Comédia)
15 - Links for 2008-04-23 [del.icio.us]
16 - Indios
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1 - Livro de Jó, descendência e amizade
   
5/9/2008 7:03:26 PM
      
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Placa com desenho de William Blake, representando o momento em que os amigos de Jó aparecem para vê-lo (todas as placas, coloridas e monocromáticas, aqui)
 

Lendo Jó - A Força do Escravo, de Toni Negri, outras questões interessantes aparecem, quando se propõe a extrair uma certa "atualidade" da figura bíblica. Negri tenta extrair as significações do embate entre Deus e o homem em termos de um debate ontológico (a absoluta desmedida divina, contra a absoluta "afirmação" de Jó quanto a sua posição finita); com isso, busca, à luz de Espinosa, reatualizar esses significados.
 
Em um outro caminho de leitura, é curiosa a extração de outros ítens. Dentre eles, as antigas tradições relativas ao vínculo com o outro, pautadas por exemplo na descendência e na amizade.
 
Quando Jó perde todos os bens, imediatamente a condição humilhante se reporta à descendência. Ao desgraçado, é vedada a continuidade na terra:
Sua memória desaparece de sua terra, seu nome se apaga na região.
Lançado da luz às trevas, ele se vê banido da terra, sem prole nem descendência entre seu povo,
sem um sobrevivente em seu território. (18, 17-19)
Do mesmo modo, quando Jó amaldiçoa o próprio dia em que nasceu, aparecem seus três amigos, Elifaz, Zofar e Bildad. Rasgam as vestes, e buscam, como advogados, encontrar um termo que possa explicar a desgraça de Jó. Contra a desmedida divina, Jó poderia apenas ter pecado, mesmo que seu pecado permaneça inconfesso, ou oculto.
Quando levantaram os olhos, a certa distância, não o reconheceram mais. Levantando a voz, romperam em prantos; rasgaram seus mantos e, a seguir, espalharam pó sobre a cabeça.
Sentaram-se no chão ao lado dele, sete dias e sete noites, sem lhe dizer uma palavra, vendo como era atroz seu sofrimento (2, 12-13). 
Independente do caráter judaico da amizade e da descendência, pode-se dizer que estes dois elementos estão relacionados a toda uma série de valorizações antigas (obviamente, não uniformes) do ser humano. Dizer hoje, por exemplo, que o aborto voluntário é um problema que deve ser abertamente discutido, ou que a amizade mudou, evoca outras valorizações, e outro tipo de relação com os outros.
 
Em relação à descendência, vários elementos poderiam ser elencados para se mostrar que, ao contrário da antiguidade, ter um filho em tempos não muito distantes pode ser considerado até mesmo um fator negativo. Um exemplo é a projeção do futuro feita por David Ricardo e Malthus: os dois propunham o controle da natalidade como forma de evitar crises econômicas. Em tempos de planejamento social, a constituição das famílias e a reprodução poderiam agir como fator não de fartura (como na antiguidade), mas de pobreza.
 
Quanto à amizade, sob muitos aspectos a noção de self made man dispensa velhos vínculos. A ligação pragmática, superficial e contextualizada, os amigos enquanto "passam uma fase juntos", e a ligação exclusivamente relacionada aos afazeres deslocam antigas tradições duráveis para vínculos meramente fortuitos. Aí se revela um significado antigo muito importante, relativo à amizade. Deus concede ao "opositor" ("o satã") retirar tudo o que Jó possui. Perde os bens e a família, enfim, todo o legado e descendência. Uma coisa, entretanto, não perde, além da própria vida: a amizade. Mesmo que estejam errados, os amigos de Jó agem em prol de uma reconciliação do amigo com a presença divina.
 
Nada mais distante de certas experiências atuais. Em caso de desgraça, um self made man tem grande probabilidade de se encontrar sem os privilégios de um Jó: permanecerá sozinho.
2 - Links for 2008-05-08 [del.icio.us]
   
5/9/2008 12:00:00 AM
      
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5/8/2008 12:00:00 AM
      
4 - Frédéric Gros, sobre novas noções de Guerra
   
5/7/2008 8:14:25 PM
      

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A Caros Amigos pulicou uma entrevista com Frédéric Gros, concedida a Gabriela Laurentiis. Reproduzimos, abaixo:


Primeiramente, o senhor poderia explicar o conceito de guerra nas culturas ocidentais? Por que esse conceito mudou depois da queda do Muro de Berlim? Qual é a nova concepção sobre a guerra?

Ainda mais precisamente do que o conceito de guerra na cultura ocidental, o qual me parece abranger coisas demais, eu poderia aqui simplesmente evocar o conceito de guerra para a "filosofia" ocidental moderna. Creio que ela contém uma das primeiras definições que existiram sobre a guerra. É definida, num livro de Alberico Gentilis datado do fim do século 16, como "conflito armado, público e justo". Retenho três dimensões dessa definição clássica. Por "conflito armado" é preciso entender um conflito violento, ou melhor, mortal. Mas essa dimensão, creio, é marcada durante toda a época moderna por uma estrutura de reciprocidade. Quer dizer que a guerra é construída como um conflito que opõe dois exércitos, fazendo os soldados se enfrentarem num campo de batalha, dos quais cada um ameaça a vida de cada outro na medida em que expõe a risco a própria vida. É esse elemento duplo de exposição à morte (portanto, de superação do medo de morrer) e de reciprocidade (portanto, de troca), que fascinou a filosofia moral. Um grande número de grandes valores éticos, como a coragem, o senso do sacrifício, a vontade de se superar, ou ainda a obediência, foram particularmente desenvolvidas no Ocidente a partir da experiência da guerra. Mas o progresso técnico transformou essas construções, quando a guerra se tornou uma matança moderna. A segunda dimensão não é ética, mas política: compreende a guerra como uma relação de violências regrada com o objetivo de reforçar, consolidar, afirmar um Estado. É a idéia da guerra como "conflito público". Por exemplo, Rousseau escreverá no seu Contrato Social que "a guerra é uma relação de Estado a Estado". Esse segundo sentido da guerra como ato de afirmação dum Estado soberano se constituiu no Ocidente quando o espaço político europeu se construía como a coexistência de uma pluralidade de Estados, cada um devendo afirmar sua consistência em relação a cada outro. Donde vem o que se chama o sistema clássico de segurança, em que o Estado se caracteriza, se legitima e se define a partir do monopólio da violência, do qual ele disporia, por um dever ilimitado de paz no interior (a ordem pública devendo ser assegurada a qualquer preço) e um direito ilimitado de guerra no exterior (para preservar sua integridade, ele pode a qualquer momento atacar outra unidade política). Enfim, quando Alberico Gentilis fala de "conflito justo" para definir a guerra, ele quer dizer com isso que a guerra é um conflito que porta uma reivindicação de direito. Essa idéia de guerra justa abrange, ademais, várias realidades : se pode pensar numa guerra justa no sentido em que a vitória definiria o campo do justo, como se a batalha fosse um processo. Mas se pode pensar também no modelo formado pelos teólogos de uma guerra justa como guerra de "justa causa: é a idéia de que a guerra não pode ser conduzida a não ser que se trate de reparar uma injustiça, punir um culpado. Enfim, se pode pensar na guerra justa como conflito em que os beligerantes (os Estados) desencadeiam violências armadas entre eles, ao mesmo tempo respeitando certas regras (a declaração de guerra, o respeito às tréguas e aos mensageiros, o bom tratamento dos prisioneiros etc.) Ora, esse conceito mudou, mas não forçosamente após a queda do Muro de Berlim. Creio que é uma série de rupturas que transformou profundamente a guerra. Pode-se pensar no progresso das técnicas de destruição, das metralhadoras à arma nuclear. Esse progresso foi de tal envergadura que o conflito entre grandes potências, que tinha escandido toda a história da Europa com notável regularidade, acabou significando seu suicídio recíproco. Mas se deve também, a longo prazo, considerar a importância política crescente das grandes democracias liberais, isto é, unidades políticas que privilegiam a discussão como meio de regulação dos desacordos e são receptivas a uma opinião pública, cada vez mais em relação a toda forma de sofrimento. O que a queda do Muro certamente provocou foi, por um breve momento, a esperança, a ilusão de que poderíamos viver num mundo sem guerra, pois o próprio símbolo da Guerra Fria, com tudo que envolvia de pesadelos ameaçadores, havia desabado.

Por que o senhor pensa que estamos no início da era dos "estados de violência"?

Com o conceito de "estados de violência, tento refletir sobre a forma dos conflitos pós-modernos. Me parece, com efeito, que novas lógicas se impõem, se formam linhas de força novas que são profundamente diferentes. As resumo sob três grandes princípios: um princípio, de início, de unilateralidade. Me parece que, ao contrário das guerras clássicas, os conflitos pós-modernos opõem mais freqüentemente alvos desarmados a meios de destruição. Seja que se trate de atos terroristas ou de intervenções ultratecnológicas, se assiste a violências largamente unilaterais. O segundo princípio é um princípio de asseguramento dos fluxos, apoiado por intervenções. O antigo sistema de guerra pressupunha uma série de distinções: entre o exterior e o interior, entre o inimigo e o criminoso etc. Os conflitos pós-modernos vão pressupor atores novos: mercenários, organizações não-governamentais, exércitos internacionais, máfias. É uma nova lógica que se forma. Enfim, falo de um princípio de midiatização para referir a importância da imagem nos conflitos contemporâneos: é por ela que se decide o sentido das novas violências. O que chamo de "estados de violência" é, portando, o que é preciso descrever na atualidade contemporânea.

O senhor poderia explicar o que é o conceito de segurança? Por que esse conceito redefine o agente político na sua dimensão de ser vivo?

O conceito de  segurança  é muito antigo, tem suas raízes muito distantes na espiritualidade dos antigos. Significava então o estado mental do sábio que não se deixa abalar por nada, mas se mantém sereno em todas as ocasiões. Como eu já disse, no sentido moderno ela se torna apanágio do Estado segundo um duplo sistema: a polícia no interior e o exército nas fronteiras. A segurança se refere então à integridade territorial do Estado. Hoje, esse conceito é problematizado de uma maneira muito nova num certo número de círculos internacionais que querem promover a idéia da  segurança humana. Essa "segurança humana" se define como a proteção do individuo nas suas capacidades vitais de desenvolvimento, de afirmação. Leva em conta tudo que possa afetar, alterar, fragilizar o homem no próprio aspecto concreto de sua vida: as doenças, os atos terroristas, a pobreza, as mudanças climáticas. Essa consideração global me leva a falar de um conceito "biopolítico" da segurança.

O senhor poderia comentar a frase de Michel Foucault,  "na história do conhecimento, a noção de natureza humana me pareceria ter desempenhado essencialmente o papel de um indicador epistemológico para designar certos tipos de discurso em relação ou em oposição à teologia, à biologia ou à história". O senhor pensa que existe uma natureza humana? Por quê?

Essa frase, creio, faz uma referência a uma problemática muito precisa que era a de Foucault no momento em que escrevia As Palavras e as Coisas. Remetida à idéia da "morte do homem", não como extinção da espécie, mas como dispositivo epistemológico. Ele explicava então que a "natureza humana" não era uma realidade imemorial, mas um princípio da organização dos discursos do saber a partir do século 19. Interrogar a verdade, isso envolvia colocar a questão: "Que é o homem". Ora, parecia a ele que essa questão estava já superada, e que a verdade da verdade era agora pesquisada do lado da linguagem. Tudo seria linguagem, comunicação, transmissão de códigos: a troca de bens, o casamento, a reprodução sexuada etc. Então, o homem, como núcleo central do saber, desaparece. O que significa para Foucault que a "natureza humana" remete a uma questão cultural precisa, mas não ter pertinência nem universal, nem trans-histórica.

*** 

E bem a propósito, saiu a edição em inglês de Segurança, Território, População.

Continuando o tema, Gros concedeu outra entrevista, muito semelhante e complementar, intitulada "Penser la guerre" (por David di Nota). Nessa mesma referência, consta um ensaio de Gros intitulado États de Violence - Essai sur la fin de la Guerre.

Dentre outros, Gros escreveu Foucault e a Coragem da Verdade, e Foucault et la Folie.

5 - Categorias raciais e sociais, no informe sobre ações afirmativas.
   
5/5/2008 8:07:09 AM
      

O Marcos chamou a atenção a um recente estudo, divulgado pela revista da FAPESP. Demonstra-se lá a eficácia de políticas afirmativas na inserção de estudantes desprivilegiados, nas universidades.

Consoante um antigo texto ("Raça - entre o argumento biológico e sócio-histórico"), gostaria de chamar a atenção a alguns elementos:

O artigo fala sobre os benefícios fornecidos a "egressos de escolas públicas e grupos étnicos socialmente desfavo­recidos". Isso inclui, portanto, duas questões: a social, e a questão étnica imersa na questão social. É o solo comum das discussões: no Brasil, o desprivilégio racial é, em primeiro lugar, social. Racismos, por aqui, não ocorrem como em outros países, onde a discriminação é sobretudo étnica, e os prejuízos sociais são decorrência disso. No Brasil, não se separa discriminação racial e social.

Portanto, no fundo as duas questões se diluem (ou deveriam se diluir) em uma: a social. "Grupos étnicos socialmente desfavorecidos", no Brasil, inserem-se no grupo mais geral dos "socialmente desfavorecidos".

Logo após, o artigo apresenta outra noção, a de "resiliência educacional". Indivíduos provindos de classes desfavorecidas apresentariam uma maior capacidade de se adaptar às adversidades. Superariam desafios duplos, com a vida difícil, e os estudos. A resiliência dos alunos os levaria inclusive a padrões de desempenho melhores que seus colegas, de classe média e alta.

O que se torna complicado, como observamos no outro texto, é essa justaposição de categorias "raciais" e "sociais", para justificar apenas, ou sobretudo, as práticas raciais. Nesse texto, a noção social de "resiliência educacional" se justapõe às práticas afirmativas, que prioritariamente se focam na raça, e não na condição social. Ou melhor, focam-se na questão social prioritariamente com "lentes" raciais.

Se o argumento se dirige do desprivilégio social ao racial, não se tornaria um constrangimento aludir que os setores contemplados com ações afirmativas detém características psicológicas privilegiadas ("resiliência"), diante dos outros setores? 

É claro que não. Todos sabem que "resiliência educacional" pode ser uma noção social, mas nunca racial. Mas é precisamente isso que mostra todo o desequilíbrio.

Tudo obedece ao fato de que as políticas sociais, no Brasil, fiam-se prioritariamente na raça, e não no socius. Dado que o racismo e o desprivilégio, no Brasil, são sociais, e não uma categoria apenas biológico-étnica, cria-se aqui uma generalização equivocada. Justifica-se um argumento geral para legitimar uma prática parcial, como se a parcialidade por si só resolvesse tudo. Mas seguindo o mesmo raciocínio, se as políticas de incentivo fossem prioritariamente sociais, não atingiriam os mesmos resultados raciais, abarcando inclusive indivíduos que no momento atual ficam à margem das ações afirmativas?

A "generalização equivocada" não se resume a um problema lógico. É social. 

*** 

O artigo da FAPESP se previne, apresentando vantagens de políticas relativas a egressos de escolas públicas, ao invés de apenas cotas. Inclusive apresenta a discussão entre cotistas e outros sistemas, como o de bônus e mérito, em universidades como a USP e a UNICAMP. Mas não se pode deixar de notar o peso ainda conferido à questão da raça, na maior parte das políticas relativas a desprivilegiados.

6 - Unembbed - Sítio e Livro
   
5/4/2008 7:21:44 PM
      

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Em outro post, publicamos um pequeno informe sobre o site Unembbed. Ele reúne jornalistas iraquianos que exploram regiões onde o trânsito de outros colegas ocidentais seria impossível, sem riscos. Em uma reportagem para o Guardian, Ghaith Abdul-Ahad comenta que, se outro jornalista estivesse cobrindo o mesmo local, seria provavelmente morto ou sequestrado.

O risco traz seus resultados: os quatro jornalistas trabalham próximos à população local, diretamente afetada pelo conflito, e também junto aos insurgentes.

Vinculado ao site, os jornalistas publicaram um livro com o mesmo título. No link, informações sobre cada um deles. Abrindo o livro, um nome de peso: o Prefácio é de Phillip Jones Griffiths (um dos maiores fotojornalistas de guerra do século XX).

7 - O que é o Behaviorismo? (com vídeos de B. F. Skinner)
   
4/30/2008 11:15:30 AM
      

A referência, com mais 6 vídeos originais do próprio Skinner (!), consta lá no Avanços em História da Psicologia. Segue a definição ;) :

Behaviorismo (Comportamentalismo): Um movimento psicológico, agora extinto, construído sob a premissa de que você é o que você faz, e você faz porque você fez. Substituído pelas psicologia humanista (você é o que você sente), ciência cognitiva (você é o que você pensa), Dr. Atkins (você é o que come), e a publicidade moderna (você é o que dissermos).

Abaixo, duas fotos de B. F. Skinner,

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durante as pesquisas, e em uma curta passagem pelo cinema.

8 - Malthus de novo
   
4/29/2008 11:14:26 AM
      

Reproduzo abaixo o pequeno "O Retorno de Malthus", de Luiz Marques, no História Viva.

 De todos os filósofos e pensadores da economia política que vicejaram desde o século XVIII, nenhum foi objeto de críticas tão unânimes quanto Thomas R. Malthus, autor em 1798 de um livro famoso: Um ensaio sobre o príncípio da população e sobre o modo como afeta o aperfeiçoamento futuro da sociedade. O pessimismo de sua tese, segundo a qual “há uma constante tendência em todas as formas de vida animada a crescer além dos estoques de alimentação disponíveis para ela”, jamais granjeou consenso. Pois a tal pessimismo, opunham-se dois tipos de otimismo. Os “integrados”, ou seja, os otimistas liberais, sempre acusaram Malthus de miopia apocalíptica, argumentando que a simbiose entre a livre-iniciativa e a tecnologia seria capaz de prover indefinidamente a demanda global de alimentos. A “revolução verde” deu-lhes razão. De seu lado, os “apocalípticos”, vale dizer, os otimistas quanto à capacidade humana de superar o capitalismo, sempre o consideraram um “integrado”, um reacionário empedernido, contrário até mesmo à mais tímida legislação paliativa da pobreza. O progresso da legislação social desde a Revolução Francesa também deu-lhe razão.

Mas as coisas mudaram. Transcorridos 210 anos do ensaio de Malthus, esses dois tipos de otimismo debatem-se em crises terminais, enquanto o pessimismo malthusiano retorna. Dados da ONU: em 2008, a população urbana do planeta está se equiparando à população rural; beiramos hoje 6,8 bilhões; em 70 anos, de 1950 a 2020, mais que triplicaremos; nos próximos 40 anos atingiremos a marca de 9,2 bilhões de indivíduos: 50% a mais que a população de 2000; em 2050, 6,4 bilhões de pessoas – o equivalente à população atual do planeta! – apinhar-se-ão em cidades. Portanto, em 40 anos (2010-2050), a população urbana, sempre sequiosa de alimentos, duplicará.
 
Haverá 50% a mais de alimentos no planeta em relação à produção já insuficiente de 2000? A resposta é não. A revolução verde atingiu seus limites. Ela foi possível por causa do petróleo abundante e barato e a conseqüente petroquímica dos fertilizantes e defensivos agrícolas. Enxertamos no solo quantidades imensas de energia fóssil. Segundo Richard Manning (The oil we eat, O petróleo que comemos) “as plantações de Iowa [EUA] requerem a energia de 4 mil bombas de Nagasaki por ano”. E esse é o padrão atual da agricultura de escala. Ora, é consenso que a tecnologia será incapaz de descobrir novas jazidas de petróleo em ritmo compatível com o do crescimento da demanda. O esgotamento das reservas petrolíferas é um fato. Ela já acarreta o aumento implacável dos preços do petróleo e o dos alimentos agrícolas, analisado por Paul Krugman em artigo do Washington Post de 7 de abril (“Grains gone wild”, Os grãos enlouqueceram). Isto para não falar no pior: o declínio dos cardumes e a demanda crescente por gado de corte, voraz consumidor de florestas e grãos, com custos ambientais terrificantes. Mas é melhor parar por aqui: neste assunto os carnívoros humanos nem querem ouvir falar.

Muito interessante o modo como Marques colocou Malthus entre os liberais e os marxistas: entre a "liberdade" do mercado, constatável a posteriori, e a condução das estruturas sociais por uma massa consciente, figuraria o pensador inglês, ou mais precisamente o significado que se poderia extrair de sua obra.

Contra o liberalismo, a presença de um Malthus "atual" mostraria que não ocorre nem um equilíbrio espontâneo e igualitário da economia, e nem um consumo "livre" adequado a recursos infinitos. Contra os socialismos reais, afirmaria que a própria realidade mostrou a impossibilidade de superar os instrumentalismos em direção a uma razão substantiva.

"Mas é melhor parar por aqui: neste assunto os carnívoros humanos nem querem ouvir falar." [2] ;)

9 - Obras Completas de Charles Darwin on-line
   
4/28/2008 10:40:09 AM
      
 
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“…it is always advisable to perceive clearly our ignorance.”
 
*** 
Para ter uma idéia do tamanho do acervo, e da preciosidade,
Segundo a organização da Biblioteca Universitária de Cambridge, esta é a maior coleção de documentos e manuscritos de Darwin. São cerca de 20 mil itens e 90 mil imagens que por décadas foram acessados apenas por acadêmicos. Os documentos foram doados pela família de Darwin em 1942, mas a instituição os recebeu apenas após a Segunda Guerra Mundial.
10 - Links for 2008-04-27 [del.icio.us]
   
4/28/2008 12:00:00 AM
      
11 - Illan Pappé e o debate brasileiro
   
4/27/2008 8:52:54 PM
      

Vale muito ler a resenha de Daniel Lopes ao livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleasing of Palestine [pesquisa de preços].

 Lendo a mídia main stream do Ocidente fica-se com a impressão de que o que ocorreu na década de 40 do século passado foi a criação de um país para os judeus numa terra quase ou completamente desabitada, pronto para conviver em paz e harmonia com o povo palestino, se apenas este assim desejasse. Com o passar dos anos, ainda segundo a lenda, por estarem as nações árabes cheias de “anti-semitas” prontos a perpetrarem um “segundo Holocausto”, o inocente país judaico teve que se armar e, imediatamente após, começar a praticar atos bélicos – unicamente em legítima defesa. Esse engodo de “uma terra sem povo para um povo sem terra”, claro, não floresceu à toa no imaginário do Ocidente cristão.

Talvez a resenha do Daniel seja uma das primeiras em terras tupiniquins, dentro de recente proposta do "clube de leituras" do Biscoito.  

Sobre esse livro, em outra oportunidade vinculamos resenhas, referências e entrevistas com o autor.

Vale a pena acompanhar a resenha junto com o pequeno documentário The Road to Palestine, de Robert Fisk. Ressonância com vários movimentos do texto do Daniel.

12 - Links for 2008-04-25 [del.icio.us]
   
4/26/2008 12:00:00 AM
      
  • Fome
    Há pelo menos dois mitos sobre o problema da fome.
  • Metamorfose
    O declínio mundial dos anfíbios é agravado pela desconexão entre o hábitat aquático dos girinos e o hábitat terrestre dos adultos, induzida pelas atividades humanas
13 - Links for 2008-04-24 [del.icio.us]
   
4/25/2008 12:00:00 AM
      
14 - De Virgílio, a Dante (de A Divina Comédia)
   
4/24/2008 5:56:45 PM
      
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Ilustração do Canto XXIII da Divina Comédia, por Gustav Doré
 
 
“Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
Em ócio” — disse o Mestre — “ou sobre a pluma
Prêmios ninguém conquista da virtude.

“Aquele que a existência assim consuma,
Tal vestígio de si deixa na terra,
Como o fumo no ar e na água a espuma.

“Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
Recobra o esforço que os perigos vence!
Impere alma no corpo em que se encerra!

“Que vais subir muito alto a mente pense;
Desse abismo não basta haver saído.
Será teu prol, se a minha voz convence”.
 

(Divina Comédia, Inferno, passagem do Canto XXIV. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro) 
 
Sobre Dante, esse site traz a Divina Comédia completa, com referências de estudos e traduções (inclusive com o poema original).  A tradução completa de José Xavier Pinheiro consta aqui. É notável o trabalho de conservação das rimas.
 
Finalmente, Gustav Doré tem vários sites dedicados às suas gravuras, que vão da Bíblia até Dom Quixote, passando também por Dante. Especialmente o Doré Ilustrations traz as imagens em alta resolução. Vale muito a pena conferir.
15 - Links for 2008-04-23 [del.icio.us]
   
4/24/2008 12:00:00 AM
      
  • O Hindenbrug do padre pateta
    Esse padre que elevou-se às alturas e desapareceu da face da Terra numa cadeirinha amarrada a um punhado de balões com hélio nem sequer foi original.
16 - Indios
   
4/21/2008 8:17:52 PM
      
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"Família de um Chefe Camacã preparando-se para uma festa", de Debret
 

Conversava alguns dias atrás na praça com um transeunte, sobre o estatuto dos índios no Brasil. A respeito de uma reserva situada no sul do país, meu interlocutor exclamou que a única coisa que se vê são índios na beira da estrada, vendendo animais ilegais e artesanatos mal feitos, perambulando e bebendo. Enfim - completou -, tudo devido a uma política "assistencialista" do governo. Índios seriam bon vivants, assistenciados e irresponsáveis. Resumindo, "vagabundos". 
 
Talvez o espanto diante de tais declarações não torne inútil um pouco de beabá. 
 
Que os governos brasileiros sempre tiveram políticas duvidosas em relação aos índios, não há o que contestar. Inclusive, acontecimentos recentes mostram isso. O general Augusto Heleno toca na discussão, quando diz que a política indigenista brasileira é desordenada e "caótica".
 
No discurso de Heleno, misturam-se alguns elementos: um certo descaso dos governos, misturado com políticas territoriais, colonização e grilagem desordenada, até a ação de ONG´s internacionais em locais onde o próprio Estado precariamente chega. Somada a isso, a atuação do exército, ao mesmo tempo limitada, porém efetiva, e um dos únicos elementos que mostram alguma presença governamental.
 
Quanto ao meu interlocutor, o primeiro elemento a se notar é que ele dirigiu a responsabilidade pelos índios aos próprios índios. Mas as coisas não são tão simples assim. Sobre isso, a própria reserva mencionada por ele até hoje sofre disputas territoriais com colonos. O que salta aos olhos é a individualização da responsabilidade. Se índios são ‘vagabundos e irresponsáveis assistenciados pelo governo’, e ainda contrários às políticas de agronegócio que circundam suas próprias terras, a primeira pergunta que sugeriria ao interlocutor é: e então, supondo que isso fosse verdadeiro, o que se propõe? Dado o horizonte de comparação, quando se colocam os índios na posição de irresponsáveis, o fim proposto seria o dos "responsáveis", ou em termos mais claros, os modelos hoje predominantes de agronegócio. Índios seriam vagabundos porque não "empreendem", e "empreendimento" refere-se àquela frase retirada dos meios empresariais. 
 
Vê-se portanto que a "responsabilidade individual" não ocorre sozinha. Junto a ela aparece um conjunto de perspectivas sobre como a terra deve ser "gerida". 
 
E nessa reserva em questão existe outro fator: a questão de leis ambientais que preservam a mata, ao mesmo tempo em que exigem a conservação da reserva indígena. Ainda, atribuem-se aos índios boa parcela de preservação efetiva de mata remanescente. Essa reserva contém a maior floresta de araucárias do mundo. Derrubar uma araucária, na região inteira, é crime. Nesse contexto, aplicar diretrizes de agronegócio significaria retirar o resto da mata, que não por acaso se conserva por estar dentro de uma reserva. Isso é um problema recorrente, mas vê-se uma atitude clara da tribo a favor da floresta.
 
Esses dois elementos conduzem à questão histórica. Se há uma reserva com um certo estatuto de "abandono", aos olhos do meu interlocutor gerando índios "vagabundos"; e se essa reserva é rodeada por grandes empreendimentos de agronegócio, uma das conclusões óbvias é que, devido à colonização dos últimos 100 anos, os índios que não se misturaram acabaram recuando diante dos colonizadores, até o recuo chegar ao ponto drástico de exigir uma reserva. Essa reserva foi fundada dentro de políticas indigenistas até hoje consideradas questionáveis, implicando toda uma série de elementos confusos. No fim da "cadeia" dos fatos, meu interlocutor apenas enxerga vagabundos.
 
Os elementos acima talvez permitam dizer algumas coisas: que meu interlocutor fictício não é apenas um (embora, felizmente, poucos  parecem pensar assim); que problemas como esses não ocorrem em apenas uma reserva; que existem preconceitos estereotipados graves sobre os primeiros habitantes do Brasil; e que, finalmente, mesmo problematizando, tudo não se passa de modo tão simples.
 
***
 
Esse post faz parte da blogagem coletiva sobre o "dia da Terra", do Faça sua Parte (verbeat.org/blogs/facaasuaparte). Refere-se, portanto, ao 22 de abril. Mas também, como se pode ver,  ao 19 de abril. ;)
17 - Links for 2008-04-18 [del.icio.us]
   
4/19/2008 12:00:00 AM